Uma mulher escarvizada citada por Helena Morley. É necessário conferir se Julia é a filha de Joaquim Angola, também mencionado no diário.
Trecho do Diário: Helena Morley
A Festa do Rosário e o Roubo do Leitão
“Eu gosto muito de todas as festas de Diamantina; mas quando são na Igreja do Rosário, que é quase pegada à Chácara de vovó, eu gosto ainda mais. Até parece que a festa é nossa. E este ano foi mesmo. Foi sorteada para rainha do Rosário uma ex-escrava de vovó chamada Júlia e para rei um negro muito entusiasmado que eu não conhecia. Coitada de Júlia! Ela vinha há muito tempo ajuntando dinheiro para comprar um rancho. Gastou tudo na festa e ainda ficou devendo. Agora é que eu vi como fica caro para os pobres dos negros serem reis por um dia.
Júlia com o vestido e a coroa já gastou muito. Além disso teve de dar um jantar para a corte toda. A rainha tem uma caudatária que vai atrás segurando na capa que tem uma grande cauda. Esta também é negra da Chácara e ajudou no jantar. Eu acho graça é no entusiasmo dos pretos neste reinado tão curto. Nenhum rejeita o cargo, mesmo sabendo a despesa que dá! O que sucedeu com o jantar de Júlia é que foi triste.
Há em Diamantina uma turma de rapazes que fazem espírito de roubar dos outros. São rapazes das principais famílias: Lauro Coe-o é um deles. Na Chácara eles entraram há poucos dias e fiam tais coisas, que eu desejei ser um homem para me vingar por vovó! Pularam de noite o muro da horta e carregaram todas as maduras; as verdes eles cortaram e deixaram metade nas flores. Arrancaram todas as verduras, lindos repolhos e espalharam pelos canteiros. Apanharam as abóboras, cortaram em pedaços e espalharam pela horta. Iaiá estava guardando uma abóbora gigante para ver até onde crescia e tirar as sementes, e eles a cortaram em pedaços.
Só se vendo o que fizeram. Vovó tem um modo de receber as coisas só dela. Primeiro ela diz: ‘Forte coisa!’. Depois acrescenta: ‘Mas poderia ser pior’. Não é que os diabos dos rapazes, que eu chamo ladrões, roubaram o leitão do jantar da pobre Júlia! Nós pensamos que eles puseram um menino na sala pela janela, que é baixa, e ele ficou escondido esperando uma hora em que a sala estivesse vazia. O leitão estava uma beleza! Cheio de farofa, com palitos enfeitados de papel de seda repenicado, prendendo rodelas de limão e azeitonas, e na boca uma rosa. Júlia só faltou chorar, coitada!”
Terça-feira, 30 de maio. (Morley)
Referências
MORLEY, Helena. Minha vida de menina. Ilustrações Lúcia Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 1998


