Salomão


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Salomão é descrito no diário de Helena Morley como um homem negro, trabalhador e extremamente digno, que vive em Bom Sucesso. Ele sustenta sua numerosa família (oito filhos) através da mineração independente, sendo bem-sucedido em encontrar “diamantinhos”.

A descrição enfatiza a organização, limpeza e hospitalidade de sua família. Salomão é apresentado como alguém que valoriza a educação, a ponto de contratar um professor particular para seus filhos durante as férias. A narradora o coloca em um patamar de superioridade moral e de educação em relação a muitos brancos que conhece, destacando a eficiência de sua esposa, Margarida, e a ordem de sua casa, apesar do problema inusitado com as baratas que atacam as crianças à noite.

Há poucos dias Renato veio dizer a mamãe que Salomão, um negro que mora em Bom Sucesso e tem oito filhos, o tinha contratado para dar escola aos meninos dele, nestas férias, a dez mil-réis por mês. Ele aceitou porque já tem muita bengala de três-folhas e muita vassoura sem vender e diz que é melhor ficar ganhando seus dez mil-réis do que ficar amontoando tanta coisa sem achar quem compre.

Salomão minera sozinho e tira sempre seus diamantinhos. A mulher dele chama-se Margarida. É uma família de negros limpos e bem-educados, que nos oferecem um jantar todas as férias e café com qualquer coisa todas as vezes que lá vamos. Eles têm uma casa limpa que faz gosto. A mesa da sala de jantar e os bancos são areados e claros como novos. O pote de água, coberto de uma toalha de crochê alva; a bandeja de xícaras também. Têm um quintal com frutas e uma hortinha muito bem tratada, com verduras de toda espécie, um galinheiro cheio de galinhas e colhem muitos ovos. Uma gente preta melhor e mais bem-educada do que muitos brancos que eu conheço. Só uma coisa na casa espanta a gente, é ver os meninos todos roídos de barata. Meu pai perguntou-lhe o que era aquilo e ele respondeu: “É o nosso castigo, Seu Alexandre. Vamos apagando a luz e já vem a barataria roer a meninada. A gente cobre eles bem cobertos, mas daí a pouco a coberta está prum lado. O senhor sabe como é difícil lidar com menino”.

Renato ia dar a escola e voltava encantado com a bondade dos meninos. Margarida estava com um filho ainda no braço e a barriga muito grande esperando outro. Renato conta que quando chegava lá já encontrava Margarida à espera dele, com a vara de marmelo em cima da mesa, e a meninada olhando para os livros sem se mexer. Todos os dias a mesma coisa. Hoje ele chegou e a encontrou no mesmo lugar tomando conta dos meninos como na véspera, mas já sem barriga e com o pretinho novo nos braços.

Não é tudo tão diferente com essa gente? Se fosse mulher branca, tinha de ficar deitada na cama oito dias tomando caldo de galinha. Margarida trabalha desde o dia que tem o menino e diz que até é melhor porque se sente mais leve.

Sábado, 28 de dezembro

Referências
MORLEY, Helena. Minha vida de menina. Ilustrações Lúcia Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 1998



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Vitória Azevedo da Fonseca

Historiadora e professora na UFVJM, Vitória é movida pelo desafio de transpor os muros da universidade, unindo o rigor da pesquisa à inovação e à criatividade. Como idealizadora do projeto Histórias em Redes, ela transforma o espaço urbano em um território de aprendizagem viva, democratizando narrativas e conectando o saber acadêmico ao cotidiano das ruas.