Felisberto Dayrell


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Pai de Alice Dayrell, autora do livro Minha Vida de Menina sob o pseudônimo “Helena Morley” aparece nos relatos do viajante Richard Burton quando foram visitar uma lavra de diamantes.
“Cavalgamos pela margem direita do rio das Pedras em direção a uma pequena lavra, onde um dos filhos do Dr. Dayrell, Felisberto Dayrell, estava trabalhando com uns vinte empregados. A propriedade é alugada e produziu diariamente 2$000 por cabeça. Com habilidade e economia pode ter resultados melhores. A “Corrida” é uma miniatura da mina Canteiro; há uma represa, mas de tamanho diminuto, e o poço ainda raso.”
(Burton, 1983, p.308)
Além das referências ao pai, há também elementos em outras fontes documentais. No Jornal “O Jequitinhonha” (Edição n.º 127, de 25 de julho de 1863) há uma nota sobre o falecimento e o testamento de D. Maria Norberta Dias Bicalho, esposa do Sr. Francisco Martins Pereira, ocorrido em 21 de julho de 1863. E, como ela não tinha filhos, dividiu sua fortuna entre parentes, instituições de caridade, médicos e afilhados. O documento revela que Felisberto Dayrell era afilhado desta senhora e que ela lhe deixou, em testamento, a quantia de 500.000 réis (quinhentos mil réis). O mesmo valor foi destinado aos outros afilhados da família Dayrell (Maria, Guilhermina e Francisco), enquanto o Dr. Dayrell (pai de Felisberto) foi agraciado com 4.000.000 de réis.

Trechos do Diário de sua filha Alice Dayrell
1. Sobre sua personalidade, bondade e falta de vícios

Falta de vícios e costumes:

“Meu pai não tem vício nenhum, não bebe a não ser água e café, não joga e não fuma. Ele toma às vezes sua pitada de rapé mas isso acho que não é vício…”

Ano 1894, Domingo, 25 de fevereiro.

Sobre a aversão à confissão e sua índole pacífica:

“A única coisa que meu pai não faz para satisfazer mamãe é confessar. Ele só faz o que mamãe deseja. Vai com ela à igreja, à missa e tudo. […] mas confessar não há jeito. Eu mesma não entendo por quê. Se meu pai furtasse alguma coisa dos outros, ainda podia pensar que ele tinha vergonha de contar ao padre. Mas nunca, nunca, vi meu pai fazer um pecadinho que seja.”

Ano 1893, Quinta-feira, 9 de novembro.

A fama de bom homem e a comparação a um santo:

“Meu pai é muito querido na família. Todos gostam dele e dizem que ele é muito bom marido e um homem muito bom.”

Ano 1895, Quarta-feira, 10 de julho.

“Meu pai em tudo na vida é o mesmo. Mamãe lhe grita: ‘Você devia ter energia e protestar, Alexandre!’. Mas não consegue. Parece até um S. Francisco de Assis assistindo à briga.”

Ano 1895, Quinta-feira, 14 de novembro.

O hábito da leitura:

“Meu pai já consumiu tudo quanto é livro de histórias e romance. Diz ele que agora só nas férias.”

Ano 1893, Sábado, 18 de fevereiro.

2. Sobre a profissão de minerador e a falta de dinheiro

A incerteza da mineração:

“Meu pai vive sempre esperando dar num cascalho rico: mas é só esperança, esperança, toda a vida. Quando ele dá no lavrado, como desta vez, lá se vai todo o dinheiro e ainda fica devendo.”

Ano 1893, Sábado, 5 de agosto.

O motivo de serem os mais pobres da família:

“Meu pai sempre repete na mesa a causa de nós sermos os mais pobres da família. Todos, na nossa família, só têm lidado com mineração a vida inteira. Meu pai conta que tio Geraldo o convidou para entrar de sociedade no serviço do Santo Antônio… Mas mamãe, com medo de perder o dinheiro, começou a fazer novena a Santo Antônio […] Meu pai desistiu da parte dele na sociedade… Tio Geraldo, que tinha a maior parte no serviço aí é que fez a fortuna dele.”

Ano 1893, Domingo, 24 de dezembro.

A lição de que dinheiro não traz felicidade:

“Ele me disse: ‘…Mas fique sabendo, minha filha, nunca pense em muito dinheiro, que não dá felicidade a ninguém e às vezes até tira. Peça a Deus só que não nos deixe faltar o necessário. Não somos tão felizes? Você se trocaria por qualquer de suas amigas ou primas ricas?’.”

Ano 1894, Segunda-feira, 3 de setembro.

3. Sobre a relação afetuosa e a admiração pela filha

O pai que fez o parto de Helena:

“Meu pai veio na carreira, cortou meu embigo, deu-me banho e me pôs na cama. Quando meu embigo caiu, ele enterrou-o no cascalho da mineração, a mandado de mamãe, para eu ter sorte.”

Ano 1895, Quarta-feira, 10 de julho.

A crença na inteligência superior de Helena:

“Meu pai me julga de uma inteligência sem igual. Nunca pude falar perto dele na inteligência de outra pessoa que ele não viesse com a mesma coisa: ‘Você que assentasse essa cabeça e estudasse, uma hora que fosse por dia, minha filha, eu queria ver se alguém te pegava’.”

Ano 1893, Segunda-feira, 17 de abril.

A vontade de ensinar inglês:

“Desde pequenina eu ouvia meu pai dizer: ‘Eu preciso ensinar Inglês a esta menina. Ela é uma inglesinha perfeita e, sem saber a língua, não pode ser’.”

Ano 1893, Segunda-feira, 17 de abril.

4. Sobre as histórias repetidas e as broncas pelas risadas

A repetição de “causos”:

“Haverá na vida suplício maior do que este que temos de agüentar toados os sábados e domingos? Temos de ficar sentadas à mesa uma hora inteira, ouvindo os casos de meu pai. Já ouvimos todos mais de vinte vezes… De todos o mais engraçado, a primeira vez, é o caso de Seu Laje.”

Ano 1893, Segunda-feira, 8 de maio.

O desespero com as crises de riso das filhas:

“Meu pai disse: ‘Eu é que fui idiota de esquecer as filhas que tenho. Umas meninas tão bonitinhas e com esse defeito! Sabe, Carolina, nós precisamos achar um meio de pôr fim no riso destas meninas. É um aborrecimento constante para nós… Eu tinha esperança delas melhorarem com a idade, mas estão ficando piores’.”

Ano 1893, Segunda-feira, 11 de dezembro.


Referências
BURTON, R. Viagens aos Planaltos do Brasil. Tomo II: Minas e os Mineiros. (Tradução de Américo Jacobina Lacombe). São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1983.
MORLEY, Helena. Minha vida de menina. Ilustrações Lúcia Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 1998



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Vitória Azevedo da Fonseca

Historiadora e professora na UFVJM, Vitória é movida pelo desafio de transpor os muros da universidade, unindo o rigor da pesquisa à inovação e à criatividade. Como idealizadora do projeto Histórias em Redes, ela transforma o espaço urbano em um território de aprendizagem viva, democratizando narrativas e conectando o saber acadêmico ao cotidiano das ruas.