John Dayrell, frequentemente referido nos documentos brasileiros como Dr. João Dayrell, foi um respeitado médico inglês que se radicou no Brasil no século XIX, construindo um notável legado na cidade de Diamantina, em Minas Gerais. Oriundo de uma família com raízes em Barbados e originalmente de Bucks, na Inglaterra, ele se formou em medicina em Londres. Em 19 de abril de 1830, aos 21 anos, casou-se com Alice Callender na Igreja Paroquial de Walcot, no condado de Somerset. Logo após o casamento, Dayrell veio para o Brasil para trabalhar na Cocaes Company, estabelecendo-se posteriormente em Diamantina, onde formou uma família numerosa e viveu por décadas.
Sua carreira médica foi marcada pela dedicação à comunidade local, integrando a comissão sanitária da cidade em 1855 para combater a violenta epidemia de cholera-morbus, ocasião em que também contribuiu financeiramente para auxiliar as classes mais pobres. Além de atuar no serviço médico-cirúrgico da Santa Casa de Caridade de Diamantina, ele era frequentemente requisitado para consultas e procedimentos cirúrgicos complexos. Suas práticas clínicas — como o uso das “pílulas de Plummer” — chegaram a ser mencionadas em publicações especializadas como o “Brazil Medico”, consolidando sua reputação como um profissional de vanguarda.
Para além da medicina, o Dr. Dayrell possuía vasto conhecimento sobre a geologia e as formações minerais de Minas Gerais, guiando viajantes estrangeiros e fornecendo amostras de ouro de jacutinga, diamantes, rubis e safiras a pesquisadores como o Dr. Hermann Burmeister. Seus filhos, Felisberto e Carlos Dayrell, também seguiram o ramo da extração de diamantes. A vida no interior, contudo, não era isenta de perigos: o médico relatou ter sobrevivido a dois atentados a tiros na Serra de Grão Mogol. O Dr. João Dayrell faleceu em 1878, após cerca de 50 anos de exercício da medicina. Seu legado foi imortalizado pela Santa Casa como o de um “apóstolo da caridade e sacerdote da ciência” .
O sepultamento do Dr. João Dayrell foi um evento marcado por grande comoção e homenagens, refletindo o profundo respeito que a sociedade de Diamantina tinha por ele.
Segundo os relatos publicados nos periódicos da época, o cortejo fúnebre reuniu um “crescido número de pessoas”. A cerimônia foi acompanhada por duas bandas de música, e vários discursos foram recitados junto ao seu túmulo. Ele foi sepultado na porta (em frente) da Capela da Santa Casa de Misericórdia de Diamantina . Em sua sepultura, foi gravada a seguinte inscrição: “Aqui jaz o Dr. John Dayrell ‘o Dr. Inglês’”. O impacto emocional da sua despedida ficou registrado no Relatório da Santa Casa de Caridade de 1879. O documento descreve a tristeza de ouvir o “ruído dessa lápide… quando se abatia para encerrar no curto espaço de uma campa este homem justo”, ressaltando que ele foi a “glória do terrão que teve a felicidade de hospedar o ilustre forasteiro”. O relatório também destacou a imensa gratidão da comunidade pelos seus 40 anos de trabalho médico incessante e abnegado voltado para os mais pobres.
O Dr. Inglês, sendo um protestante ferrenho, se desentendeu com o bispo da cidade. Em função disso, costumava passar dias em seu sítio em São Gonçalo do Rio das Pedras onde se dedicava ao garimpo e ao comércio de diamantes.
Fontes
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BURMEISTER, Hermann. Viagem ao Brasil: Através das províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. São Paulo: Livraria Martins Editora, . (Série Biblioteca Histórica Brasileira, XIX).
BURTON, Richard F. The Highlands of the Brazil. [S.l.: s.n.], 1869. cap. 8, p. 120-121.
BURTON, Richard F. Viagem de Canoa de Sabará ao Oceano Atlântico. [S.l.: s.n.], 1977. p. 129.
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WALCOT PARISH CHURCH. Licença e Certidão de Casamento de John Dayrell e Alice Callender. Diocese de Bath e Wells, Somerset, Inglaterra, 19 abr. 1830 a 22 abr. 1830


