Trecho do Diário: Helena Morley
O Casamento de Magna e Mainarte
“Houve agora na Chácara uma coisa que nunca tinha acontecido. Uma negra chamada Magna casou com um negro africano chamado Mainarte. Ela é muito esperta. Não quis que ele ficasse no fundo da horta na preguiça, como vivia, e arranjou um rancho no Arraial dos Forros para os dois. Ela se empregava nas casas para cozinhar e mandava Mainarte trabalhar para os outros.
Ele apanhava estrume, dava barris de água e buscava areia na Almotolia. Na Chácara, só se fala na maldade de Magna com o pobre do Mainarte. Era raro o dia em que ela não lhe dava uma surra. Ele foi queixar-se a vovó, que a chamou, mas Magna respondeu com todo o atrevimento: ‘Ou ele trabalha ou apanha. Eu não capeio preguiçoso’.
Há dias chegou a notícia que Magna estava na cadeia e Mainarte de cama, à morte. Ela lhe deu uma surra e quis esganá-lo. Vovó chamou Seu Chico Guedes, que eles chamam de rábula, e mandou providenciar para tirá-la da prisão.
Magna foi agradecer e vovó lhe disse: ‘Malvada! Querer tirar a vida do marido que Deus lhe deu!’. Ela respondeu: ‘Não, senhora! Ele mesmo é que é de raça de gente que morre! Eu só apertei o pescoço dele e pus a língua de fora pra não me responder. Não quis matar ele, não, senhora’.”
Quinta-feira, 27 de abril. (Morley)
MORLEY, Helena. Minha vida de menina. Ilustrações Lúcia Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 1998


