Mariquinha Bonecreira é representada nos diários de Helena Morley como uma figura típica do comércio artesanal de Diamantina. Ela personifica a simplicidade das diversões infantis da época, em um tempo onde “bonecas de loja” eram raras e as crianças dependiam da habilidade de artesãs locais ou da própria criatividade para confeccionar seus brinquedos.
No relato de Helena, Mariquinha transparece uma certa indiferença prática aos desejos específicos das crianças: apesar de Helena insistir por uma boneca “bem grande” para carregar como um bebê, Mariquinha entrega exemplares apenas ligeiramente maiores e com cabelos já presos em coques, frustrando o plano das meninas de penteá-los. Ela é o elo entre a expectativa da infância e a realidade limitada do artesanato popular, sendo responsável por uma das rápidas decepções que, segundo Morley, moldaram sua resiliência e felicidade.
Trecho do Diário: Helena Morley
Mariquinha Bonecreira e a Decepção das Bonecas de Pano
“Nós, eu e Luisinha, nunca tivemos bonecas de loja. Nossa distração era carregar os meninos dos vizinhos ou brincar com grandes bonecas grosseiras que fazíamos de pano.
Um dia, eu devia ter seis ou sete anos, passou pela nossa porta Mariquinha Bonecreira, vendendo bonecas de pano. Mamãe quis nos comprar mas não quisemos, porque não poderíamos vesti-las bem. Mariquinha logo ofereceu fazer maiores e eu disse: “Quero então uma bem grande, que eu possa carregar como se fosse menino. A senhora faz assim?”. Ela não respondeu, mas eu insisti: “Faça bem grande, Siá Mariquinha”. Passados uns dias ela trouxe as bonecas, pouquinho maiores do que as outras. Os cabelos com que sonhávamos para penteá-los, ela os encaracolou
e fez as bonecas com coques. Nós vínhamos fazendo castelo com as bonecas e arranjando retalhos para fazer os vestidos; quando vimos as que ela trouxe, tivemos muito desapontamento. Felizmente durou pouco a decepção. Guardamos as bonecas no armário e não nos lembramos mais daquilo.
Por estas decepções da minha infância eu tenho experiência de que as crianças nunca sofrem, como a gente pensa, com as coisas. Eu era, como sou, muito feliz
Referências
MORLEY, Helena. Minha vida de menina. Ilustrações Lúcia Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 1998



