Minha Vida de Menina


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As diversas autoras e críticos literários convergem ao afirmar que o livro Minha vida de menina, escrito por Helena Morley (pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant), é uma obra de inestimável valor literário, histórico e social. A análise dos pesquisadores sobre o livro divide-se, fundamentalmente, em aspectos literários, sociológicos, históricos e de gênero:

Qualidade Literária e Status de Clássico As autoras e autores destacam que o diário, concebido inicialmente de forma despretensiosa, conquistou um lugar cativo na literatura nacional. Alexandre Eulálio afirma que o livro, em um fenômeno curioso, “amanheceu clássico, vindo a conquistar imediatamente, sem alarde, um lugar de destaque em nossas estantes” (Eulálio, 1998, p. 07). A crítica enaltece a qualidade narrativa da obra, elevando-a ao patamar de grandes produções do século XIX, com Roberto Schwarz chegando a comparar o realismo de Helena à complexidade da personagem Capitu, de Machado de Assis (Schwarz, 1997, p. 101). Para muitas pesquisadoras feministas, “pela qualidade literária, o livro constitui um relato primoroso sobre o cotidiano brasileiro, sobretudo sobre a vida das mulheres” (Schumaher; Brazil, 2000, p. 259).

A Subversão e o Papel da Mulher Oitocentista Um dos focos centrais das análises é o modo como a obra retrata a condição feminina em uma sociedade androcêntrica e patriarcal. Helena Morley é vista como uma voz transgressora porque, ao narrar sua própria história com forte senso crítico, ela recusa o silenciamento imposto às mulheres da época. Uma autora ressalta que “o narrador feminino é, por si só, subversivo, uma vez que a mulher está narrando, ao invés de ser narrada” (Schwantes, 2006, p. 8). Através de sua escrita, Helena critica as mulheres de sua família que viviam unicamente em função de seus maridos e filhos, recusando para si esse mesmo destino de submissão (Orsolin, 2018, p. 46). O gênero do diário íntimo serviu, portanto, como um refúgio e o “único meio de se expressar sem precisar conter o enfrentamento público” (Viana, 1995, p. 55).

Um Retrato Histórico e o Racismo Estrutural A obra também é lida como um valioso documento histórico sobre o Brasil no período de transição entre o Império e a República e o momento pós-abolição. O diário “retrata, em perspectiva assumidamente pueril, o dia a dia de uma cidade do interior de Minas Gerais em um momento de grandes mudanças sociais, econômicas e políticas” (Machado, 2024, p. 7). Além disso, a obra expõe dinâmicas de classe e o racismo estrutural da época; a partir dos relatos da menina, é possível identificar as condições subalternas e de exploração em que viviam “as mulheres negras, também personagens dessa narrativa […] em uma época de recente abolição da escravatura” (Orsolin, 2018, p. 46). Apesar de Helena muitas vezes reproduzir os preconceitos de sua família branca, ela “registra o olhar da sociedade branca em relação ao negro nos momentos durante e pós-escravidão” (Araújo, 2021, p. 2), narrando personagens marginalizados que, de outra forma, teriam sido apagados da história (Rodrigues, 2024, p. 99).

O Diário Íntimo e o Pacto Autobiográfico Por fim, os autores debatem a natureza confessional do diário e as desconfianças que surgiram sobre sua autoria, visto que a obra foi publicada apenas em 1942, quase cinco décadas após ter sido redigida. Alguns críticos chegaram a suspeitar que o marido da autora, Augusto Mário Caldeira Brant, tivesse alterado os originais, ou que o texto tivesse sido moldado na fase adulta da escritora (Schwarz, 1997, p. 45-46). Contudo, a maioria dos teóricos afasta essa tese, louvando o ineditismo da obra, que traz uma “literal reconstrução da infância” impossível de ser forjada por um adulto (Eulálio, 1998, p. 8). Em suma, os estudiosos concordam que Minha vida de menina encontra-se “a meio caminho do documento e da ficção”, imortalizando o cotidiano de Diamantina a partir de uma “sensibilidade especial dessa menina, aliada a um jeito natural para escrever” (Braga, 1958, p. 2).


Referências

ARAÚJO, Maciel Nascimento de. Literatura e racismo estrutural: proposta de trabalho na escola com o livro Minha Vida de Menina. Seminário DoCEntes, Ceará.

BRAGA, Ruben. Cadernos de menina. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, p. 2, 2 ago. 1958.

EULÁLIO, Alexandre. Livro que nasceu clássico. In: MORLEY, Helena. Minha vida de menina. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

MACHADO, Thatiane Teixeira. As vozes no diário: a mulher e o negro em Minha vida de menina, de Helena Morley. 2024. 54 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Letras: Português e Literaturas) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2024.

MORLEY, Helena. Minha vida de menina. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

ORSOLIN, Silvana Capelari. Um olhar pelo buraco da fechadura: as personagens femininas oitocentistas no diário Minha vida de menina, de Helena Morley. 2018. 126 f. Dissertação (Mestrado em Letras – Estudos Literários) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2018.

RODRIGUES, Natália Francisca de Matos. Relatos e confissões em Minha vida de menina, de Helena Morley. 2024. 112 f. Dissertação (Mestrado em Estudos Literários) – Universidade Federal do Tocantins, Porto Nacional, 2024.

SCHUMAHER, Maria Aparecida; BRAZIL, Erico Teixeira Vital. Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

SCHWANTES, Cíntia. Dilemas da representação feminina. OPSIS, Goiânia, v. 6, n. 1, p. 7-19, 2006.

SCHWARZ, Roberto. Duas meninas. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

VIANA, Maria José Motta. Do sótão à vitrine: memórias de mulheres. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1995.

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Vitória Azevedo da Fonseca

Historiadora e professora na UFVJM, Vitória é movida pelo desafio de transpor os muros da universidade, unindo o rigor da pesquisa à inovação e à criatividade. Como idealizadora do projeto Histórias em Redes, ela transforma o espaço urbano em um território de aprendizagem viva, democratizando narrativas e conectando o saber acadêmico ao cotidiano das ruas.