Helena Morley traça um perfil fascinante de Nazinha como uma menina de beleza estonteante, cuja franqueza expõe, sem malícia, a diferença de classe social entre as duas (como no episódio das botinas sem verniz).
Trecho do Diário: Helena Morley
O Encontro com Nazinha e as Botinas sem Verniz
“Eu me recordo da ida com tia Madge à Chácara da Gupiara quando eu era pequena, para visitar essa Biela Neto. Ela chamou a filha, Nazinha, uma menina muito linda da minha idade, para me conhecer e irmos brincar. Ela me tomou pela mão com toda simpatia, dizendo: ‘Vamos brincar’.
Levou-me para a frente da casa e começaram as perguntas: ‘Que pintinhas são essas que você tem na cara?’. Eu respondi: ‘São sardas‘. ‘Você gosta ficar pintadinha assim?’ Aí eu não pude mais responder. Olhou-me a botina e disse: ‘Por que é que sua botina é furadinha assim?’. Eu respondi: ‘É porque o verniz caiu‘. ‘E por que não trocou por outra?’ Eu fiquei desapontada de responder: ‘Porque não tenho outra’. Ela disse com um encanto: ‘Coitadinha!‘. Não gostei do ‘coitadinha’, mas ela era tão linda que eu não pude deixar de me sentir satisfeita de ter-lhe causado aquela pena.
Depois ela me perguntou: ‘Quais os brinquedos que você sabe?’. Eu propus brincarmos de comidinha. Ela disse que esse estava muito bom. Fizemos comidinha de mentira. Apanhamos umas plantinhas cheirosas parecendo arroz e ficamos distraídas nisso muito tempo.
Na saída ela disse à mãe: ‘Pede a tia Madge para trazê-la sempre aqui, mamãe. Ela é tão boazinha e sabe tanto brinquedo’. Depois virando para mim: ‘Você vem, sim? Mesmo que tenha acabado de sair o verniz de suas botinas não faz mal; vem assim mesmo’. Hoje a tia dela contou que ela está no colégio, no Rio, e eu fiquei pensando como ela não estará hoje e com tanto desejo de vê-la de novo.”
— Domingo, 16 de dezembro de 1894. (Morley)


