O “Parentinho”


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Boêmio de alma fidalga e descendente de linhagens tradicionais, o “Parentinho” vivia em um antigo palacete no alto da Rua Direita. Sem emprego fixo, passava a vida narrando com ironia as glórias do passado e frequentando banquetes e jantares de batizado por toda a cidade. Sua fama consolidou-se pela mania de chamar todos os cidadãos de “Parentinho” e por ser considerado o “garfo mais afinado” de Diamantina. Faleceu aos setenta anos na mesma residência em que nasceu. “…foi a typica figura do bohemio inegualavel que mais me causou inveja, tal a serenidade olympica com que passou a vida…”

Uma figura com mesmo nome aparece no diário de Helena Morley:

Trecho do Diário: Helena Morley
Parentinho e a “Maninha”

“Não há em Diamantina quem não conheça Parentinho. Eu sempre o conheci magricela, de fraque esverdeado de tão velho, com um chapéu duro muito largo enterrado na cabeça, um sapatão que cabem dois pés dentro, revirando a bengala na rua a passear de tarde na capistrana. Ele é um velhinho muito curioso, trata todo o mundo de ‘parente’ e vai a todas as casas quando há jantar.

Eu nunca tinha falado com ele. Ontem tive o gosto de encontrá-lo em uma festa de aniversário na casa de Seu Guerra. Pediram-lhe que dançasse o solo inglês. Emprestei-lhe um cravo que eu trazia no peito e ele dançou engraçadíssimo.

Depois pessoas me contaram as suas esquisitices. Ele tem uma irmã que ninguém nunca viu, que nunca saiu de casa e são muito unidos os dois. Se a gente o convida para comer um doce, ele sempre pede a parte da ‘maninha’ para levar-lhe. Ontem, à saída, ele lembrou a Maria Emília ‘o doce da maninha’ e ela lhe deu um embrulho de luminárias e doces.

Dizem também que eles têm uma prata de dois mil-réis que não gastam; passa de um para o outro todo aniversário, com o mesmo versinho: ‘Aceita o pouco que amor te envia, se mais tivesse, mais te daria’.

Ele e a irmã descobriram um meio muito econômico de tomar café. Coam café sem doce, um taco de rapadura no canto da boca e vão bebendo devagarinho. Se a rapadura não acaba, eles ainda guardam o taquinho para outra vez. Que engraçado!”

Sexta-feira, 2 de agosto. (Morley, 1983)


(FERNANDES, Augusto. Typos populares de Diamantina, 1931, p. 31. Link: https://historiasemredes.com/referencia/fernandes-augusto-tipos-populares-de-diamantina-1931/).
MORLEY, Helena. Minha vida de menina. Ilustrações Lúcia Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 1998



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Vitória Azevedo da Fonseca

Historiadora e professora na UFVJM, Vitória é movida pelo desafio de transpor os muros da universidade, unindo o rigor da pesquisa à inovação e à criatividade. Como idealizadora do projeto Histórias em Redes, ela transforma o espaço urbano em um território de aprendizagem viva, democratizando narrativas e conectando o saber acadêmico ao cotidiano das ruas.