Sebastião Rabelo


A história vive nas redes. Compartilhe! Dê vida ao passado.

A figura de Sebastião Rabelo nos relatos de Helena Morley representa o equilíbrio entre a rigidez acadêmica da Escola Normal e a vitalidade da vida rural em Diamantina. Como professor de Português, ele é descrito como uma autoridade implacável na correção de redações, utilizando tinta vermelha para substituir expressões populares por termos precisos, como o adjetivo “aziago”, e demonstrando habilidade em identificar o uso de manuais de modelos de cartas. Helena o define como alguém “mau de verdade” no contexto dos exames, por ser um mestre que não se deixava levar por adulações ou laços familiares, exigindo o estudo efetivo de suas alunas.

Fora do ambiente escolar, entretanto, Rabelo é retratado como um homem alegre e próspero, residente na região do Jogo da Bola. Ele era proprietário de uma chácara famosa pela produção de uvas e vinhos de qualidade, além de laranjais fartos. Morley descreve com admiração seu estilo de vida equilibrado: o rigor no trabalho durante a semana e a liberdade dos domingos dedicados à caça de codornas. Além disso, o professor possuía saberes práticos do campo, como a técnica rápida de extração de bernes em animais, o que fascinava a jovem Helena pela eficiência superior aos métodos caseiros de sua família.

Trecho do Diário: Helena Morley
A Redação e o “Aziago”

“Fiquei admirada de Seu Sebastião hoje não ler alto o que escrevi ontem e sei que as colegas iam rir tanto como no dia que ele perguntou o sexo de boneca e eu gritei: ‘Bonecra fêmea, bonecro macho‘. Ontem escrevi na minha redação: ‘Hoje foi um dia em águas para mim’. Hoje ele devolveu a carta com um grande letreiro em tinta vermelha: ‘aziago‘. Se ele estivesse com vontade de brincar não deixaria escapar. Talvez tenha tido pena ou já tenha percebido que eu não tenho dicionário e que só escrevo o que ouço dos outros ou coisas de minha cabeça.”

— Segunda-feira, 23 de outubro.

Trecho do Diário: Helena Morley
A Inveja da Chácara de Uvas

“Se há uma coisa de que eu tenho inveja é da chácara de uvas do nosso Professor Sebastião. No Jogo da Bola passa o dia inteiro uma procissão de mulheres com cestos de uvas na cabeça para a casa de Seu Sebastião, para fazer vinho. As filhas de Seu Sebastião é que são bem felizes, porque além da chácara de uvas para fazer vinho elas têm um laranjal enorme de laranjas embigudas. Eu pensava é que ele, sendo amigo da família de Glorinha, não reprovasse. Mas já vi que com ele é tolice. Até a gente o adular e não adianta nada; ele é mau de verdade. Nós teremos de estudar.”

— Terça-feira, 5 de dezembro.

Trecho do Diário: Helena Morley
Lições de Campo e Bernes

“Estava lá, na pedreira, nosso professor Seu Sebastião. Ele é muito alegre e ri toda hora. Vê-se que ele é muito feliz. Trabalha a semana inteira e, quando tem um feriado ou domingo, ele pendura a espingarda no ombro, monta no seu cavalo e sai com seus cachorros para o campo atrás das codornas. Hoje eu vi Seu Sebastião tirar uma porção de bernes do cachorro dele num instante, de modo muito fácil. Espremia o berne e ele saltava longe. Quando eu tiver algum berne não faço mais o processo de mamãe. Se não doer, estou mestra de tirar berne, não só de cachorro como de gente.”

— Quinta-feira, 19 de abril.

Trecho do Diário: Helena Morley
O Flagrante do Manual

“Copiei uma carta que achei uma beleza, dobrei bem dobradinha e meti no seio. Só pensava na hora em que Seu Sebastião lesse a carta e me elogiasse. Hoje, quando cheguei à aula, ele estava com a ruma de redações. Quando chegou a minha vez: ‘Helena Morley!‘ olhou para o meu lado e parou um instante. Fiquei com o coração aos pulos. Ele gritou alto: ‘Onde é que você descobriu o manual?‘. Os alunos caíram na gargalhada. Que maldade de Seu Sebastião!”

— Sábado, 5 de maio.

Trecho do Diário: Helena Morley
O Caderno como Confidente

“Escrevo tudo neste caderno que é o meu confidente e amigo único. Eu sou a única menina da Escola que escreve tudo que pensa nas cartas para Seu Sebastião. Mas há muita coisa que eu não tenho coragem de levar para ele. Estou em vésperas de exame e já disse a mamãe que não posso apresentar-me com o uniforme já tão desbotado e remendado no cotovelo. Tenho muitíssima fé nas minhas orações a Nossa Senhora. Rezo um terço e ela me ajuda na certa. Estou convencida que este pensamento que me veio à cabeça ontem foi de Nossa Senhora: um meio de ter um vestido para os exames.”

— Domingo, 25 de novembro.

Trecho do Diário: Helena Morley
O Início das Aulas na Escola Normal

“Amanhã vão começar as aulas da Escola Normal. Renato não gosta de estudar e não deixa também que eu estude; ficamos brigando o tempo todo até eu desistir. Tive a infelicidade de cair na roda das meninas mais vadias da Escola. Amanhã já tenho de começar a escrever diariamente a redação e copiar os Ornamentos da Memória. Poderemos sair sem saber Geometria ou Francês; mas sairmos sem saber escrever uma carta, eu duvido. Seu Sebastião depois da aula fica na porta à espera, e todas temos de entregar a redação. Nenhuma tem coragem de afrontar o professor de Português.”

— Domingo, 17 de fevereiro.

Trecho do Diário: Helena Morley
Maria da Quitéria e o Banquete Surpresa

“Mamãe mandou da Sopa uma mulher que é a melhor coisa deste mundo: Maria da Quitéria. Hoje João Felício veio jantar conosco. Maria pôs na mesa um frango ensopado, lombo de porco com batatas fritas e a ‘goiabada das inglesas’. Tinha além disso uma garrafa de vinho de Seu Sebastião Rabelo. Fiquei tão pasma que não pude compreender nada. A alegria minha era tanta que me parecia estar num grande banquete.”

— Quinta-feira, 14 de março.

Trecho do Diário: Helena Morley
A Vadiação Forçada e a Memória

“Se eu tivesse coragem de explicar às minhas primas e primos o transtorno que a visita diária deles me causa! Eu penso que se todos os professores fossem como Seu Sebastião, eu teria coragem de fugir dos primos. O pretexto que as primas acham é que eu não terei paciência de ensinar meninos e por isso não preciso de título de normalista. Mas não pensam que eu preciso de estudar para não ficar ignorante? Se eu não tivesse a boa memória que tenho seria incapaz de fazer um exame no fim do ano, com a vadiação forçada que eu levo o ano todo.”

— Domingo, 24 de março.


MORLEY, Helena. Minha vida de menina. Ilustrações Lúcia Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 1998



AVISO: A Inteligência Artificial é usada no Histórias em Redes como suporte técnico para otimizar a interação do usuário. A seleção, a verificação histórica e o controle editorial permanecem sob autoria humana, sendo a equipe do projeto a única responsável pelas informações divulgadas. Erros podem ser cometidos. Entre em contato se verificar algum.

← Voltar

Agradecemos pela sua resposta. ✨

Vitória Azevedo da Fonseca

Historiadora e professora na UFVJM, Vitória é movida pelo desafio de transpor os muros da universidade, unindo o rigor da pesquisa à inovação e à criatividade. Como idealizadora do projeto Histórias em Redes, ela transforma o espaço urbano em um território de aprendizagem viva, democratizando narrativas e conectando o saber acadêmico ao cotidiano das ruas.