Balduína


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Nos relatos de Helena Morley, Balduína é descrita de forma depreciativa, tanto em termos físicos quanto de temperamento, ocupando o cargo de inspetora na escola. Morley a caracteriza como uma mulher “crua” e invasiva, que busca demonstrar importância ao transitar pelos salões escolares e intervir em situações triviais que não lhe dizem respeito.
É retratada com uma fisionomia “amarela” e com a falta de dentes frontais. A menina menciona de forma irônica sua silhueta, sugerindo gestações muito frequentes. Também é vista como uma figura antipática e arrogante, que reage com agressividade a comentários banais. No episódio da discussão sobre casas em Diamantina, Balduína revela um caráter vingativo ao atacar a condição financeira de Helena e a memória de sua avó, expondo uma natureza reativa e defensiva em relação ao status social de sua própria família.

Trecho do Diário: Helena Morley
Siá Balduína e o Conflito na Escola

“Para que inspetora na Escola é que não compreendo. Quando há uma brigazinha qualquer ou mesmo uma casca de laranja no chão, já se vai chamar o diretor para repreender. Siá Balduína é só para ficar arrastando a antipatia e a importância dela de salão em salão, com aquela barriga tendo um filho todo mês e aquela cara amarela sem um dente na frente, metendo-se onde não é chamada.

Oh mulherzinha crua! Sempre tive antipatia dela mas hoje estou com ódio.

Estávamos numa roda, conversando muito despreocupadas da vida e Jeninha disse: ‘Você sabe, Helena, que Inhá vai se mudar?’. Eu perguntei para onde e ela disse: ‘Não sabe ao certo; já tem várias casas em vista: a da esquina da Rua da Quitanda, a de Jucá Leite na Rua do Bonfim e a de Dona Marcela, aquela grande ali em frente à Escola. Ainda não se decidiu’. Eu logo disse: ‘Qualquer das outras, menos a de Dona Marcela que é muito grande e antipática’. Nem me lembrei que Siá Balduína é filha de José Teixeirão, marido de Dona Marcela.

Siá Balduína, que tecia crochê a pouca distância, gritou bem alto: ‘Não sei como uma antipática como essa Helena tem coragem de chamar as coisas dos outros de antipáticas. Isso é só inveja, porque mora numa biboca de casa e a avó, que tinha fama de rica, morreu naquela arapuca da Rua Direita. Por isso ela não perdoa a ninguém ter casa bonita e grande como a de meu pai’. E continuou por aí sem parar de xingar.

Mas a alma de vovó me protege nessas ocasiões. Nessa hora bateu o sino para a entrada da aula e eu disse às outras: ‘Com esta podemos nos retirar’. E virei para Siá Balduína: ‘A senhora tem toda razão. É inveja mesmo‘. E entramos para a aula.”

— Quarta-feira, 30 de outubro. (Morley)


Referências
MORLEY, Helena. Minha vida de menina. Ilustrações Lúcia Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 1998



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Vitória Azevedo da Fonseca

Historiadora e professora na UFVJM, Vitória é movida pelo desafio de transpor os muros da universidade, unindo o rigor da pesquisa à inovação e à criatividade. Como idealizadora do projeto Histórias em Redes, ela transforma o espaço urbano em um território de aprendizagem viva, democratizando narrativas e conectando o saber acadêmico ao cotidiano das ruas.