O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Diamantina foi fundado no início da década de 1970 e possui uma história peculiar. Antes da fundação de uma instituição sindical que congregasse os trabalhadores rurais, o segmento dos proprietários rurais, ou seja, os donos de maiores extensões de terra, já possuía uma entidade representativa, fundada em 1965 sob a denominação de Sindicato Rural de Diamantina (SRD). No entanto, essa instituição não agregava a maior parte da população que vivia no meio rural diamantinense, trabalhando em pequenas propriedades dentro de um sistema de pluriatividade. Atuando no cultivo da terra, na criação de animais, na venda de mercadorias na cidade e também no garimpo, em suas diversas formas, esses trabalhadores não correspondiam à categoria de produtores rurais e, portanto, não se integravam ao SRD. Os membros do Sindicato Rural de Diamantina, em sua origem, também não se dedicavam exclusivamente à atividade agrícola, possuíam terras, em maiores quantidades e extensão, e empregavam pessoas no trabalho agrícola. Na lista de sócios figuravam políticos, médicos, profissionais liberais de diversas ocupações e até representantes do segmento religioso da cidade. Essa instituição tinha como objetivo básico discutir questões importantes para o meio rural da região e apoiar seus membros nos processos de desenvolvimento, dentro de uma leitura própria daquela conjuntura marcada pelo período ditatorial.
Já o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Diamantina surgiu como resposta a demandas provenientes de diferentes frentes. De um lado, estavam os próprios trabalhadores, que sentiam a necessidade de fundar uma entidade capaz de atender às suas principais necessidades, especialmente no que se referia à assistência à saúde. Esse desejo era alimentado pelo conhecimento da existência de sindicatos de trabalhadores rurais em diferentes partes do Brasil. Por outro lado, o segmento proprietário enfrentava um desafio que precisava ser superado: a perda massiva de trabalhadores que deixavam as áreas rurais de Diamantina para atuar em fazendas de outros estados ou mesmo para residir em grandes centros urbanos. Tal situação preocupava os proprietários, que temiam a escassez de mão de obra nos anos seguintes. Somando-se a esses grupos, a Igreja Católica de Diamantina, ativamente presente nos debates junto ao segmento patronal e representada, naquela conjuntura, pelo arcebispo Dom Geraldo de Proença Sigaud, também possuía interesses relacionados à vida e ao trabalho dos trabalhadores rurais. Esses interesses convergiam com os do segmento patronal: manter a população no campo, garantindo a disponibilidade de mão de obra, e evitar o contato dessa população com aquilo que era percebido como “ideologias comunistas”.
Diante desses interesses convergentes, representantes dos trabalhadores rurais, do segmento patronal e da Igreja Católica reuniram-se com o propósito de fundar um sindicato para os trabalhadores rurais de Diamantina. A intenção era criar uma instituição capaz de oferecer assistência à saúde e colaborar na intermediação de contratos de trabalho na região. Isso contribuiria para conter o êxodo rural local e reduzir o risco de escassez de mão de obra. Nesse contexto, em 1970, iniciaram-se os preparativos que levariam à fundação do sindicato. Naquele mesmo ano, realizavam-se as eleições municipais em Diamantina. Entre os candidatos ao cargo de prefeito estava João Antunes de Oliveira, destacado médico e figura pública de relevância no município. João Antunes também participava do Sindicato Rural e dos debates acerca da sindicalização dos trabalhadores como forma de enfrentar os desafios locais. Após ser eleito para o cargo de chefe do Poder Executivo municipal, passou a atuar ativamente no apoio ao processo de sindicalização.
A partir de maio de 1971, o projeto de fundação do sindicato recebeu novo impulso com a instituição, em âmbito federal, do Programa de Assistência ao Trabalhador Rural (PRORURAL). Esse programa garantia assistência social e previdenciária aos trabalhadores rurais e previa que sua operacionalização pudesse ocorrer por meio dos sindicatos, que ficariam responsáveis, inclusive, por atestar o enquadramento dos beneficiários. Dessa forma, somando-se aos interesses já existentes, o projeto foi efetivamente colocado em prática. Em outubro de 1971, foi fundado o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Diamantina. A Carta Sindical, reconhecendo oficialmente sua existência, foi expedida em 28 de janeiro de 1972. Participaram da articulação desse processo representantes do segmento patronal, especialmente João Antunes de Oliveira, então prefeito de Diamantina, o arcebispo Dom Geraldo de Proença Sigaud, Antônio Dias Neves, representante patronal e Genésio Lélis e Edson Soares da Silva, representantes dos trabalhadores rurais.
Após sua fundação, as instalações do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Diamantina (STRD) e do Sindicato Rural de Diamantina (SRD) funcionavam no mesmo espaço. Muitos trabalhadores que não se identificavam exclusivamente como trabalhadores rurais passaram a ser enquadrados nessa categoria para terem acesso aos benefícios do PRORURAL, ocultando, inclusive, outras atividades que exerciam. Além disso, foi colocado em prática um projeto sindical que tinha como propósito transformar o STRD em uma estrutura voltada para a assistência médica e social dos trabalhadores. Seja pelas condições que marcaram sua fundação, seja pela conjuntura política do período, o STRD consolidou-se como uma instituição voltada ao atendimento dos trabalhadores nos campos da saúde, da previdência social, da intermediação de acordos de trabalho e da assistência jurídica, sem assumir um perfil marcadamente representativo, combativo ou classista.
O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Diamantina foi fundado, em parte, para atender a interesses patronais e da Igreja Católica, funcionando também como mecanismo de contenção do êxodo rural. Contudo, a instituição igualmente acolheu e atendeu demandas importantes dos trabalhadores rurais do município. Sua presença permanece viva na memória da população rural, que lhe atribui papel fundamental no acolhimento durante momentos de doença, na proteção em situações de vulnerabilidade e na mediação de demandas previdenciárias. No âmbito da história do trabalho em Diamantina, poucas instituições tiveram impacto tão significativo sobre a vida dos trabalhadores rurais quanto o STRD. Ao longo de sua trajetória, o sindicato consolidou-se na memória coletiva como agente importante na transformação das condições de vida no campo. Ainda que sua atuação estivesse associada a políticas públicas mais amplas, como a implementação do PRORURAL, iniciativa do Estado brasileiro, sua capacidade de mediação e operacionalização fez com que a instituição se tornasse parte fundamental da história rural de Diamantina.
PINHEIRO, Túlio Henrique. Trabalhadores, terra, sindicato: sindicalismo rural em Diamantina – MG (1970-1985). São Paulo: Editora Dialética, 2023, 356p.


