A obra Governo de mineiros mui necessário para os que vivem distantes de professores… (1770), escrita pelo cirurgião José Antonio Mendes, atua na pesquisa acadêmica contemporânea como uma fonte primária de caráter multidisciplinar, mobilizada para analisar as estruturas sociais, científicas e linguísticas do Brasil setecentista. No campo da história da ciência e da saúde, o manual é empregado para compreender a dinâmica da medicina doméstica no isolamento do interior colonial, demonstrando como o conhecimento técnico era simplificado para leigos e senhores de escravos na ausência de médicos diplomados. A análise desse texto revela o hibridismo prático que caracterizou a formação de um saber empírico tropical, calcado na fusão da tradição hipocrático-galênica e da iatroquímica europeias com o uso da flora e fauna nativas. Ademais, a obra evidencia as tensões corporativas e as estratégias de mobilidade social no Antigo Regime, explicitando como Mendes utilizou os discursos de utilidade pública, caridade e relatos de curas de pacientes influentes para intervir na medicina interna — área restrita aos doutores —, legitimando sua própria ascensão socioeconômica a partir do ambiente colonial.
Sob a ótica da história social, o livro de Mendes é utilizado como documento para mapear as condições de vida, trabalho e mentalidade na região mineradora. Os pesquisadores extraem do tratado dados sobre a patologia do trabalho e do tráfico negreiro, observando as descrições de afecções respiratórias, dermatológicas e do escorbuto causadas pelas dinâmicas da exploração aurífera e do transporte de cativos. O manual também expõe a lógica econômica da escravidão, uma vez que a recomendação para a criação de boticas domésticas nas propriedades visava, primordialmente, à preservação patrimonial e à manutenção da força de trabalho. Aspectos da cultura e da moralidade da época, como o alcoolismo, a incidência de doenças venéreas ligadas ao meretrício e a subordinação da terapêutica médica aos rituais religiosos — expressa na exigência de confissão prévia do enfermo —, também são analisados a partir das páginas do tratado.
Para além do viés historiográfico, o volume serve como base de dados para a linguística histórica e para a lexicografia. O extenso inventário de doenças e receitas médicas fornece um corpus textual do século XVIII que permite mapear a fixação, circulação e operação de unidades lexicais especializadas no português colonial. Assim, o manual de Mendes é mobilizado pela pesquisa atual não como um receituário estático, mas como um documento vetor que viabiliza a análise empírica do pragmatismo econômico escravista, das negociações de status profissional e do desenvolvimento do vocabulário técnico setecentista.
Para Junia Furtado (2012)
…décadas após a edição do Erário Mineral, vem a lume, em Lisboa, o trabalho de José Antônio Mendes, Governo de mineiros mui necessário para os que vivem distantes,²² de 1770, cirurgião formado no Hospital Real de São José, de Lisboa, que exerceu a medicina no Hospital da Demarcação Diamantina, Serro do Frio. Essa obra que consolida a importância de tratados de medicina prática para a orientação dos colonos” (Furtado, 2012)
Ana Carolina Viotti (2012) utiliza a obra como fonte histórica para analisar as péssimas condições de vida, os problemas respiratórios e o detalhamento da dieta alimentar precária imposta aos escravizados na colônia. Seu trabalho destaca que o manual aconselhava os senhores a manterem uma “botica doméstica” para os escravizados, unindo o dever cristão à necessidade financeira de evitar a morte do cativo. Além disso, Mendes se justifica por abordar a medicina interna, área então proibida aos cirurgiões.
Já Wissenbach aponta O Governo de mineiros … como uma obra tardia (1770) que consolidou os ensinamentos práticos de medicina para os moradores coloniais desassistidos. O contexto da análise está na história das ciências e na circulação de saberes na América Portuguesa, ilustrando o empirismo e as improvisações cotidianas da cirurgia luso-brasileira, valendo-se dos “símplices da terra” e do saber popular para suprir a ausência de médicos letrados. (Wissenbach, 2002, p. 115, 143).
Gomes, em sua dissertação analisa esse manual em detalhes, utilizando-o como uma de suas três fontes primárias principais. O livro é analisado sob o viés da história cultural e social da saúde, evidenciando como Mendes diagnosticava e propunha tratamentos para “cursos de sangue”, “histerismo”, feridas e o escorbuto, indicando receitas com fortes influências químicas (como o uso do antimônio) ou botânicas. A obra é inserida em um contexto de ascensão e legitimação da prática de cirurgiões que atuaram como médicos na zona aurífera e buscaram guiar, de forma didática, a constituição de uma “botica doméstica” (Gomes, 2022, p. 11-13, 47-50, 106-107)
Rafael Dias da Silva Campos aborda analisando que, diante da carência de agentes de saúde formalmente treinados no vasto interior da América portuguesa, havia uma imperativa demanda por manuais em língua vernácula que capacitassem os leigos no autocuidado. A tese classifica o manual como um importante exemplar da “medicina doméstica” colonial, uma literatura voltada para a automedicação e para o socorro de pessoas isoladas. O autor ressalta que o livro “oferecia saberes úteis àqueles que não tinham acesso aos praticantes das artes de cura”. Além disso, a tese cita diretamente a obra para exemplificar as prescrições médicas do século XVIII, destacando que o manual continha receitas práticas para doenças comuns, como o uso de alcanfor (cânfora) e triaga magna para o tratamento da erisipela, além de abordar o escorbuto (mal de Luanda)
Márcia Moisés Ribeiro a analisada a obra como um documento central para a reconstrução da biografia e trajetória social do cirurgião José Antonio Mendes. A autora estuda o manual no contexto da subversão das hierarquias do Antigo Regime, mostrando como o autor não apenas tentava atalhar o sofrimento dos escravos – expostos a péssima alimentação e água corrupta no sistema escravista – mas como também se valeu da escrita da obra de modo autopromocional, fazendo propaganda de suas curas para alcançar prestígio, clientela e ascensão social que não obteria na Europa. (Ribeiro, 2005, p. 64, 68-75)
Arquivo da edição original (1770) digitalizado e gentilmente disponibilizado pela Biblioteca Nacional de Portugal. https://www.bnportugal.gov.pt/
Referências
CAMPOS, Rafael Dias da Silva. Os 15 de Montpellier: Medicina, política e relações de poder nas Luzes entre Montpellier, Coimbra e o Brasil (ca. 1770 — ca. 1820). 2018. Tese (Doutorado em História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa) – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 2018.
DOMLADOVAC-SILVA, Carolina; MURAKAWA, Clotilde de Almeida Azevedo. Levantamento de unidades lexicais especializadas em obras médico-cirúrgicas de Setecentos. Domínios de Lingu@gem, Uberlândia, v. 14, n. 3, p. 814-834, jul.-set. 2020.
FURTADO, JF., org., FERREIRA, LG. Erário mineral [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2002. Mineiriana collection. Clássicos series. 821 p. ISBN 978-85-7541-240-4. Vol. 1 e 2. Available from SciELO Books http://books.scielo.org.
GOMES, Gislane dos Santos. Os registros de três cirurgiões sobre o tratamento dos corpos enfermos nas Minas Setecentistas. 2022. 149 f. Dissertação (Mestrado em História e Cultura Social) – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 2022.
MENDES, Joze Antonio. Governo de mineiros mui necessário para os que vivem distantes de professores. Lisboa: Oficina de Antonio Rodrigues Galhardo, 1770.
RIBEIRO, Márcia Moisés. Nem nobre, nem mecânico: A trajetória social de um cirurgião na América portuguesa do século XVIII. Almanack braziliense, São Paulo, n. 02, p. 64-75, nov. 2005.
VIOTTI, Ana Carolina de Carvalho. As medicinas das Minas Gerais a partir de três manuais Setecentistas. Khronos, Revista de História da Ciência, São Paulo, n. 9, p. 183-203, jun. 2020. Disponível em: http://revistas.usp.br/khronos.
VIOTTI, Ana Carolina de Carvalho. As práticas e os saberes médicos no Brasil colonial (1677-1808). 2012. 179 f. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 2012.
WISSENBACH, Maria Cristina Cortez. Gomes Ferreira e os símplices da terra: experiências sociais dos cirurgiões no Brasil colonial. In: FERREIRA, Luís Gomes. Erário Mineral. Organização de Júnia Ferreira Furtado. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro; Centro de Estudos Históricos e Culturais; Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2002. p. 107-150.



