José Antônio Mendes foi um cirurgião português nascido em São Vicente do Chão, no Arcebispado de Braga.
Obteve sua formação prática no prestigiado Hospital Real de Todos os Santos, em Lisboa, onde recebeu sua carta de licença para praticar a cirurgia no ano de 1739. Um traço notável de sua trajetória é que, embora o ensino de anatomia estivesse suspenso naquele hospital por questões religiosas, seu extremo empenho e aplicação aos estudos fizeram com que o cirurgião-mor do reino o aprovasse com o inusitado título de “cirurgião anatômico”.
Atraído pelas descobertas auríferas, migrou para a América portuguesa na primeira metade do século XVIII, onde permaneceu por cerca de trinta e cinco anos. Inicialmente, estabeleceu-se na Bahia e, posteriormente, seguiu para a capitania de Minas Gerais, fixando residência na região do Serro do Frio. Nas Minas, clinicou em instituições de grande importância, trabalhando no hospital do Contrato Diamantino (no Arraial do Tijuco) e no hospital militar do Regimento dos Dragões. Seu prestígio e capacidade técnica o levaram a alcançar a altíssima patente de Comissário Geral do Cirurgião-Mor do Reino em toda a América. Esse cargo lhe conferia a autoridade de examinar candidatos a práticos (como barbeiros, sangradores e parteiras), inspecionar as boticas locais e realizar vistorias nos hospitais do território.
Na prática diária colonial, Mendes transgrediu constantemente os limites legais de seu ofício. Em uma sociedade onde a cirurgia era considerada uma “arte mecânica” separada da medicina interna (ofício exclusivo de físicos graduados nas universidades), ele assumiu simultaneamente os papéis de cirurgião, médico e boticário. Diagnosticava doenças, prescrevia tratamentos e manipulava medicamentos (como mezinhas, pílulas e unguentos), tarefas teoricamente proibidas a ele. Antecipando-se às censuras dos doutores acadêmicos, justificava-se argumentando que a urgência em salvar vidas e a caridade cristã falavam mais alto, uma vez que a população pobre e os escravizados das Minas viviam isolados, a muitas léguas de distância de qualquer auxílio médico oficial.
Em seus tratamentos, combinava a medicina hipocrático-galênica europeia com um forte empirismo, valendo-se de ingredientes nativos do Brasil e de remédios químicos potentes. Sua grande arma contra chagas, úlceras e o temido escorbuto (conhecido como Mal de Luanda) era a “manteiga de antimônio”. Mendes tinha tanta confiança nesse unguento que afirmava que outros professores deveriam “venerá-lo”, relatando imenso sucesso ao aplicá-lo nos doentes pobres internados no Hospital do Contrato.
A dissertação de Gislane Gomes e os trechos originais deixados por Mendes revelam a dura realidade médica no Hospital do Contrato. Ao chegar à instituição, o cirurgião voltou a deparar-se com “casos nunca vistos nesta Europa”. Foi preciso adaptar totalmente seus saberes para lidar com as severas “doenças de mineiro” e as epidemias entre os escravizados — com destaque especial para os “cursos de sangue” (diarreias sanguinolentas graves causadas pela péssima qualidade da água e pelas duras condições de trabalho nas lavras), que chegaram a acometer mais de 500 enfermos no hospital em um único ano.
Para instruir leigos no socorro a doentes, publicou em Lisboa, no ano de 1770, a célebre obra “Governo de mineiros mui necessário para os que vivem distantes de professores…”. O livro, contudo, também revela outra face de sua personalidade: Mendes era um hábil autopromotor. Ele aproveitava os escritos para exaltar os próprios méritos e fazer publicidade de suas curas de cânceres e tumores, fazendo questão de mencionar pacientes notórios que tratou a pedido do rico contratador João Fernandes de Oliveira.
Essa estratégia de autopromoção atendia perfeitamente à lógica do Antigo Regime. Como detalha a historiadora Júnia Furtado, o fato de João Fernandes mandar curar os pobres no hospital “pelo amor de Deus” era, na verdade, um ritual desenhado para publicizar sua própria grandeza e magnificência; ao exigir que os doentes curados lhe rendessem graças, o contratador revertia a caridade em prestígio político. Mendes pegava carona nesse teatro de poder: relatar em seu livro os casos terríveis que curava a mando do poderoso contratador era a estratégia perfeita para ganhar fama, atrair clientela e se destacar dos concorrentes na colônia.
No fim da vida, José Antônio Mendes retornou a Portugal. Sem sofrer qualquer punição por ter atuado ilegalmente como médico no Brasil, consolidou a publicação de seu manual e continuou a clinicar com grande sucesso, atendendo pacientes da alta sociedade metropolitana.
Referências
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MENDES, José Antonio. Governo de mineiros mui necessário para os que vivem distantes de professores… Lisboa: Oficina de Antonio Rodrigues Galhardo, 1770.
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VIOTTI, Ana Carolina de Carvalho. As medicinas das Minas Gerais a partir de três manuais Setecentistas. Khronos, Revista de História da Ciência, São Paulo, n. 9, p. 183-203, jun. 2020.
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