Arinda aparece nos relatos de Helena Morley como uma representação da sorte inesperada e da desigualdade social no ambiente das lavras de Diamantina. Amiga de infância de Helena na Boa Vista, ela pertence a uma família de mineradores extremamente humilde — descrita por Morley como tão pobre que todos os membros dormiam sobre um único couro no chão do rancho.
A trajetória de Arinda no diário é marcada pelo episódio em que, em meio à lama e ao cascalho onde as crianças costumavam brincar de procurar “diamantinhos”, ela encontra uma pedra de grande valor. O relato destaca o contraste entre a euforia do pai, que recebe a vultosa recompensa de quinhentos mil-réis, e a desprendida Arinda, que não recebe um centavo do prêmio e não se importa, evidenciando sua simplicidade e a dura realidade da exploração mineral, onde a riqueza passa pelas mãos dos pequenos sem nelas permanecer.
Trecho do Diário: Helena Morley
Arinda e a Sorte na Lavra da Boa Vista
“Quando eu tenho inveja da sorte dos outros, mamãe e vovó dizem: ‘Deus sabe a quem dá sorte’. Na Boa Vista agora é que eu acabei de crer.
Nós todos, os meninos e meninas da Boa Vista, depois que acabamos de jantar, a coisa que mais gostamos é ficar descalços, com o pé no molhado, subindo e descendo o desbarranque da lavra, procurando diamantinhos e folhetas de ouro. Estava conosco Arinda. De repente ela abaixou com um grito e apanhou um diamante bem grande.
Corremos todos para o rancho. Meu tio Joãozinho olhou e disse a meu pai: ‘Veja, Alexandre, que beleza!’ e deu para Arinda cinco notas de cem mil-réis, novinhas. O pai, a mãe e todos ficaram doidos de alegria. Fiquei até com pena do pobre e achei que foi melhor Arinda ter achado o diamante. O rancho dela não tem senão um couro para todos dormirem, coitados.
O pai dela disse que vai aumentar o dinheiro em um serviço num lugar que ele sabe. Fiquei triste quando meu pai disse: ‘Que idiota! Eu sei onde ele vai enterrar o dinheiro; é naquela gupiara do Bom Sucesso que nós já lavramos’. Arinda não ganhou nem cem réis e não se importou.”
— Sábado, 21 de janeiro. (Morley)
Referências
MORLEY, Helena. Minha vida de menina. Ilustrações Lúcia Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 1998


