Descrita como uma escravizada por Helena Morley:
Helena Morley descreve Cesarina como uma “negrinha” órfã, filha da ex-escrava Mãe Tina, que faleceu de tuberculose (tísica). Após a morte da mãe, Cesarina e seu irmão Emídio ficaram sob os cuidados da mãe de Helena para serem criados.
No diário, ela é retratada com muito carinho, sendo descrita como uma pessoa “muito boazinha” e muito amiga das meninas. Cesarina ajuda bastante no serviço da casa, como lavar as roupas no rio e arrumar tudo, o que Helena agradece por lhe dar mais tempo livre para estudar e escrever.
Além de trabalhadora, Cesarina é descrita como “engraçadíssima” e capaz de fazer a família “cair de rir” com suas atitudes. O diário relata alguns episódios cômicos envolvendo a menina:
Durante uma visita à casa de Dona Mariquinha, Cesarina sussurrou para Luisinha comparar uma menina sardenta com ela, o que provocou um frouxo de riso incontrolável nas irmãs.
Em outra ocasião, Helena mandou Cesarina entrar sorrateiramente no quarto de um hóspede caladão para furtar sua vela, caso ele estivesse dormindo. Cesarina voltou passando mal de tanto rir e, sem conseguir falar, precisou fazer um gesto com os dedos em forma de “óculo” para explicar que o homem estava com os olhos bem abertos.
Helena também relata a aflição que a família viveu quando Cesarina adoeceu do peito e começou a cuspir sangue. A mãe de Helena, com medo de que a doença fosse contagiosa e que a menina tivesse o mesmo destino trágico da mãe, não quis tratá-la em casa e a enviou para a Boa Vista. Para a grande alegria de Helena e de toda a família, Cesarina conseguiu se recuperar e retornou curada, alegre e “bem mais gordinha”.
Trecho do Diário: Helena Morley
A Visita a Dona Mariquinha e o Frouxo de Riso
“Estamos na Boa Vista e fomos hoje à casa de uns amigos que obsequiavam sempre a mamãe com frutas, ovos e frangos. Esta amizade ficou forte com a parecença de Luisinha, minha irmã, com a sobrinha deles, a Quitinha. Dona Mariquinha dizia sempre: ‘Vendo a sua menina, parece que estou vendo a outra Dona Carolina‘.
O único lugar de toda a redondeza que tem frutas é a chácara de Seu Jucá. Aqui na Boa Vista só querem minerar; para plantar, eles todos dizem que a terra não presta. Mas agora nem sombra de fruta a gente verá mais por culpa de Cesarina. A demônia da negrinha entortou o caldo todo.
Chegamos à casa de Seu Jucá para comparar as duas. Vem de lá de dentro Dona Mariquinha com uma menina sardenta pela mão, e Cesarina diz baixinho para Luisinha: ‘Olha só, Zinha, a menina que parece com você’. Foi um acesso de riso tão forte que mamãe, com medo de estourar, deixou meu pai sozinho dando explicações.
Meu pai dizia: ‘Imbecis! Idiotas! Acabem com isso!’. Dona Mariquinha ficou com uma cara tão fechada, que eles tiveram de sair. Mamãe é como nós; é dela que puxamos esse riso solto“.
Quarta-feira, 18 de janeiro. (Morley)


