A Mineração Tejucana S.A
também referida como Companhia Tijucana foi uma das mais imponentes empresas do setor diamantífero no Brasil, atuando como a grande protagonista da transição do garimpo artesanal para a extração mecanizada de grande escala no Vale do Jequitinhonha.
A empresa foi criada originalmente na década de 1950. Conforme a reportagem da época:
A Companhia Tijucana foi fundada em 1955, por um grupo de diamantinenses, e detinha as concessões de lavra nas margens do Jequintinhonha (BODANZKY; MESQUITA, 1968, s/p).
Existindo praticamente apenas no papel em seus primeiros anos, a empresa sofreu uma transformação radical através da intervenção do norte-americano George Reed, que viabilizou a entrada de capital pesado. O próprio diretor-gerente da companhia, Alexandre Misk, relatou essa composição societária:
Essa empresa, fundada por brasileiros, posteriormente foi adquirida por um grupo americano. Iniciados os serviços de prospecção, Dragagem de Ouro S.A. (50% nacional – 50% americana na participação acionária) foi convidada a participar no empreendimento (MISK, 1976, p. 79).
Em 1978, a Tejucana foi vendida ao grupo belga Union Minière. Esse grupo manteve-se como sócio majoritário até 1996, quando a empresa foi novamente vendida, desta vez para um grupo de mineradores locais de Diamantina (RENGER et al., 2025, p. 22; MARTINS, 2025, p. 186).
O monopólio da Tejucana foi sustentado por um forte amparo legal do Estado, que lhe concedeu imensas extensões de terra. O Decreto nº 1.647, por exemplo:
Autoriza a Mineração Tejucana Ltda. a lavrar diamante e ouro, no leito e terrenos reservados nas margens do rio Jequitinhonha […] compreendido na faixa de vinte e três mil e cem metros (23.100m) de comprimento e duzentos metros (200m) de largura (BRASIL, 1962, s/p).
Outros decretos nos anos seguintes garantiram blocos de centenas de hectares para pesquisa em Diamantina e Bocaiúva (BRASIL, 1965, s/p; BRASIL, 1966, s/p).
O impacto desse acúmulo de terras foi sentido diretamente na região. Conforme aponta a historiografia:
No Alto Jequitinhonha, empresas como a Mineração Tejucana (de capital belga) e algumas pessoas conseguiram alvarás de pesquisa de várias e extensas áreas, colocando em dificuldades os pequenos garimpeiros que desejavam explorá-las (MARTINS, 2025, p. 115).
A empresa enfrentou o desafio de explorar um aluvião onde o teor de diamantes era extremamente baixo (apenas 0,01 quilate por metro cúbico). A solução foi o pioneirismo no uso de maquinário colossal. Nas palavras de Misk:
Para o diamante aluvionar, a Mineração Tejucana S.A. é pioneira em dois aspectos importantes: – Lavra por dragas de alcatruzes – Lavra de aluviões de teor baixo (MISK, 1976, p. 80).
A operação dessa draga monstruosa, que começou a operar em 1967 sob o nome de “Chica da Silva” (RENGER et al., 2025, p. 22), foi detalhada literalmente pelo seu diretor:
O método consiste em escavar-se continuadamente, areia e cascalho e em cerca de 100 segundos, encontrar em cada 20 toneladas de material, uma pedrinha do tamanho de 1/4 de grão de arroz, pesando 2 centésimos de grama (MISK, 1976, p. 80).
Apesar de ser vista como um leviatã monopolista, a diretoria se defendia usando a alta taxa de contrabando no garimpo brasileiro como argumento:
E não é por outro motivo, que a Tejucana tem aparecido em algumas estatísticas oficiais, com 95%, quando na realidade, não chega a produzir 20% da produção brasileira (MISK, 1976, p. 83).
A agressividade da lavra mecanizada cobrou seu preço ambiental, resultando em duros conflitos nos anos 1980.
No dia 3 de agosto [de 1989], em blitz avassaladora, a intervenção governamental paralisou centenas de catas, lacrou bombas e atingiu grandes empresas de mineração que atuavam na região, a Mineração Tejucana e a Mineração Rio Novo […] Foi realizado um embargo coletivo das atividades minerárias (MARTINS, 2025, p. 116).
A Tejucana conseguiu voltar a operar somente 75 dias após o embargo, amparada por uma autorização judicial (MARTINS, 2025, p. 116).
O fim da operação em larga escala ocorreu em 1994, quando a draga Chica da Silva encerrou sua atuação no Córrego Água Verde e “foi vendida à Mineração Rio Novo que a desmontou e levou para ser instalada na área da foz do Rio Caeté-Mirim” (RENGER et al., 2025, p. 22). Adquirida por sócios locais em 1996, a empresa já se encontrava praticamente esgotada, “sendo mantida em atividades extrativas pelo grupo local até o ano 2000” (RENGER et al., 2025, p. 22).
REFERÊNCIAS
BRASIL. Decreto do Conselho de Ministros nº 1.647, de 26 de novembro de 1962. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1962.
BRASIL. Decreto nº 57.068, de 15 de outubro de 1965. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1965.
BRASIL. Decreto nº 57.715, de 2 de fevereiro de 1966. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1966.
MARTINS, Marcos Lobato. Os motins do diamante: conflitos entre mineradores e Estado. In: MARTINS, Marcos Lobato. Achegas para a história de Diamantina: estudos de história local. Diamantina: UFVJM, 2025. p. 103-121.
MESQUITA, H. (ou BODANZKY, J.). Reportagem para Revista Realidade. Diamantina, 1968. Mimeografado.
MISK, Alexandre. Mineração aluvionar. Geologia e Metalurgia, São Paulo, Boletim n. 38, p. 75-88, 1976.
RENGER, F. E. et al. Dados da produção e da ocorrência de grandes diamantes da província diamantífera da Serra do Espinhaço Meridional, Minas Gerais, Brasil: registro histórico e da memória oral e sua significância geológica. Geologia USP, Série Científica, São Paulo, v. 25, n. 3, Doc. Supl. 2, S. Especial, p. 2-23, set. 2025.


