As fontes abordam as “negras de tabuleiro” (mulheres que vendiam gêneros alimentícios e mercadorias de forma ambulante) sob a ótica da intensa vigilância e repressão da administração colonial, que via nesse tipo de comércio um meio que facilitava o contrabando de diamantes.
Na obra Instrução para o governo da Capitania de Minas Gerais, José João Teixeira Coelho registra que, na tentativa de conter os desvios de pedras preciosas no Arraial do Tijuco, o governo enrijeceu as leis comerciais. O autor documenta que o governador Conde das Galveas “renovou as penas contra os que comprassem diamantes fora do Tijuco e contra as vendas e negras de tabuleiro” (COELHO, 1780, Cap. 21, n. 9). Essa menção evidencia que a circulação livre dessas mulheres era vista como uma ameaça direta ao monopólio da Coroa.
Joaquim Felício dos Santos, em Memórias do Distrito Diamantino , detalha ainda mais a brutalidade das restrições e corrobora o cenário de repressão (SANTOS, 1976, p. 56). O autor especifica que, por meio de um bando expedido em 1º de março de 1743, foi expressamente proibido que “as negras ou mulatas fôrras ou captivas, andarem com taboleiros pelas ruas ou lavras” (SANTOS, 1976, p. 77). A partir dessa ordem, elas perderam o direito ao comércio ambulante, “só lhes sendo permittido venderem os generos comestíveis nos arraiaes e nos lugares que para esse fim lhes forem marcados” (SANTOS, 1976, p. 77).
A desobediência a essa fixação de local resultava em punições físicas extremas, estabelecidas sob a rigorosa “pena de duzentos açoutes e quinze dias de prisão” (SANTOS, 1976, p. 77). Felício dos Santos também explica a consequência urbana dessa segregação comercial: o Intendente do Tijuco designou uma rua específica para confinar o pequeno mercado dessas trabalhadoras, e foi exatamente por essa razão que o local <b."foi chamada da Quitanda", uma denominação histórica que se conservou até a época contemporânea ao autor (SANTOS, 1976, p. 77)
Referências
COELHO, José João Teixeira. Instrução para o governo da Capitania de Minas Gerais. Introdução de Francisco Iglésias; leitura paleográfica e atualização ortográfica por Cláudia Alves Melo. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1994. (Coleção Mineiriana, Série Clássicos).
SANTOS, Joaquim Felício dos. Memórias do Distrito Diamantino da Comarca do Serro Frio (Província de Minas Gerais). 4. ed. Apresentação de Mário Guimarães Ferri; prefácio e bibliografias de Alexandre Eulálio; notas de Nazaré Meneses e José Teixeira Neves. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Belo Horizonte: Livraria Itatiaia Editora, 1976. (Coleção Reconquista do Brasil, vol. 26)


